Rui Martins
Quando se diz que Inovafil é inovação, é claramente isso
T64 - Julho/Agosto

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Inovação é uma palavra que lhe consta do nome, mas está-lhe principalmente gravada no ADN. Os projetos supranacionais em que a Inovafil está envolvida são o que de mais radicalmente novo é possível encontrar ao nível dos fios têxteis e as suas propriedades são, no mínimo, surpreendentes.

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uais são os indicadores da dimensão da empresa?

Em termos de volume de negócios, temos de separar duas áreas: a produtiva – que vem do nosso core, a produção de fio – e o negócio, que influencia bastante os valores da faturação mas não é core, nem aquilo que liberta margem: a compra e venda de fio. Uma vez que estamos associados à Mundifios, temos bastantes sinergias e essa área é uma delas. Temos uma faturação à volta dos dez milhões de euros. O ano passado numa situação perfeitamente anormal, vínhamos de um primeiro trimestre muito bom, diria dos melhores de sempre e depois sofremos uma paragem abrupta.

 

Pararam a produção?

Decidimos, por diversas circunstâncias, parar a produção durante um mês. Não foi exclusivamente por falta de encomendas, foi pela instabilidade, que poderia ter vários desfechos – default, quebras de compromissos de encomendas já colocadas nos clientes… Conversámos com os nossos clientes, satisfizemos as encomendas realmente necessárias e decidimos parar para avaliar as circunstâncias. Retomámos a laboração em junho a 50% até às férias – sempre uma fase decrescente, uma vez que a fiação é o início da cadeia produtiva. A atividade retomou, e muito bem, a partir de setembro e tem até sido até hoje uma enorme surpresa: 2021 está a ser o nosso melhor ano de sempre, o que não deixa de nos surpreender, dada a conjuntura internacional, a baixa do consumo e o confinamento. Sabemos que o mercado online compensou – mas não compensou o fecho das lojas e toda a quebra de consumo que existiu.

 

Verifica-se uma retoma?

A procura tem sido elevadíssima – já nos deixámos de tentar perceber porquê. Temos feito uma gestão no curto e médio prazos, sempre atentos ao fenómeno porque tudo pode mudar de um momento para o outro – basta haver uma mutação [do vírus] que seja resistente às vacinas e pode descambar tudo.

A característica da Inovafil é a aprendizagem constante
A equipa está viciada em produtos novos, em desafios novos.
Temos que estar atentos e reagir, como fizemos no ano passado.

 

Os 10 milhões de 2020 o que valem relativamente a 2019?

Mesmo com a paragem e a trabalhar três meses a 50%, conseguimos, também por via da venda de algum stock, fechar 2020 com uma faturação de menos 2% ou 3% que no ano anterior. 

 

Este ano ultrapassam os 10 milhões?

Esperamos ultrapassar. Não queremos fazer muitas previsões. Estamos como no primeiro trimestre de 2020 e em vez de uma paragem, temos continuidade. Se colarmos 2020 a partir de setembro ao que está a ser 2021, certamente que teremos números muito superiores. Vamos seguramente ter um ano melhor que 2020 e mesmo melhor que 2019, estamos em crer.

 

São cerca de 120 colaboradores. Em termos de exportações, qual é o quadro?

A exportação foi sempre uma agradável surpresa. A Inovafil é um projeto desenhado para apoiar a indústria nacional e o cluster têxtil do norte, que precisa de uma fiação como a Inovafil, que faz produtos diferenciados e de valor-acrescentado.

 

E de repente vieram os estrangeiros…

Dizia-se que o têxtil europeu estava morto, mas percebemos que a Europa tem ela própria necessidade de fio e de produtos diferenciadores e não de commodities e que tem capacidade instalada. E a nova reflecção que se está a fazer sobre a Europa, os novos programas, não vão travar o processo de globalização mas vão alterá-lo. Aquilo que eram dogmas como aquele que dizia que a produção iria deslocar-se toda para a Ásia e que a Europa iria limitar-se a comprar e a vender coisas com margens – o design, a conceção…

 

E o selo…

O selo Europeu. Este último ano claramente expôs a Europa a um risco de dependência da Ásia e de gigantes que começam a dominar a econ

Acreditamos que tendo nós a melhor fileira têxtil europeia, melhor até que a Itália – tirando o ‘made in Italy’ – temos que servir os melhores e é para eles que estamos a trabalhar. Exportamos cerca de 50% da produção essencialmente para a Europa, França e Alemanha, e para os Estados Unidos.
omia do mundo.

 

Houve um risco político claramente negociado pela Europa, não lhe parece?

Sim, estamos a falar da pandemia, mas vamos no futuro falar de outras circunstâncias que vão ser semelhantes a esta, sejam tempestades, decisões políticas, mudanças de sistemas…

 

Ou barcos que encalham nos canais demasiado estreitos…

Ou tipos que acordam mal dispostos e mudam acordos comerciais e começam a impor tarifas. Temos aqui coisas que a China não tem, os designers, o estilo, as marcas, a capacidade de fazer uma marca reconhecida e adorada. A China tem esse grande handicap, embora esteja paulatinamente a conseguir chegar lá. Estamos a falar de uma catástrofe, mas temos que ver o lado positivo, que nos despertou para um caminho que a Europa estava a trilhar, que nos levaria ao desemprego, à exposição a terceiros. Temos que ter alicerces: a economia, agricultura, indústria.

 

Acha que o PRR vai nesse sentido?

O PRR é uma necessidade, mas, para um país como Portugal, tenho algumas dúvidas relativamente à sua aplicabilidade, porque o que percebi até agora é que vai muito para projetos de dimensão – para consórcios gigantes, para projetos de muitos milhões, quando o tecido empresarial é de PME. Não faz sentido nenhum…

 

Até porque não está prevista nenhuma discriminação positiva para as empresas portuguesas…

Exatamente. Vamos assistir ao aproveitamento nas multinacionais – vão criar emprego e ajudar a economia nacional, nada contra, mas esses investimentos, importantíssimos para o país, não deixam de ser mais voláteis. No bater a rebate são os primeiros a ir, e fica o tecido empresarial e os industriais portugueses a tentarem segurar a economia – com a resiliência que nos é reconhecida e que claramente devia ser apoiada. 

 

E contudo, estão aqui.

Acreditamos que tendo nós a melhor fileira têxtil europeia, melhor até que a Itália – tirando o ‘made in Italy’ – temos que servir os melhores e é para eles que estamos a trabalhar. Exportamos cerca de 50% da produção essencialmente para a Europa, França e Alemanha, e para os Estados Unidos – para mercados não convencionais, mercados que não vestuário. Temos muitas empresas norte-americanas como parceiras. Estamos envolvidos em vários projetos de investigação e desenvolvimento. Quando se diz que Inovafil é inovação, é claramente isso.

 

Vamos a essa parte. Fios para energia térmica, libertação de vitamina E, retardadores de envelhecimento, aceleradores de cicatrização, gestão de humidade, termorregulação. Estamos numa têxtil ou num laboratório de alquimia?

Estamos numa têxtil. A equipa que aqui está, se a colocasse a trabalhar em monoproduto, desmotivaria na próxima semana. A equipa está viciada em produtos novos, em desafios novos. A Mundifios percebeu que, se quisesse responder aos novos desafios, como a área desportiva, roupa de trabalho e tantas outras coisas, teria de ter produção, com pequenas quantidades, respostas rápidas, sem ‘stockar’. A Mundifios não vai fazer stock de uma coisa que pode vender ou não – só faz stock daquilo que sabe que vai vender – mais caro ou mais barato, isso é o negócio deles, mas que tem a certeza que vai vender.

 

Resulta tudo da aposta na área de desenvolvimento?

Resulta daquilo para o qual fomos concebidos: sabíamos desde o início que teríamos que nos afirmar pelo produto e pelo serviço. Desde o início que temos o projeto dotado com uma mini-fábrica experimental para fazer desenvolvimentos e amostras. Somos certificados IDI [investigação], mas quisemos ir mais à frente: criámos um projeto com a Universidade do Minho e formámos um grupo de I&D que tem como função a procura de materiais, a ligação com parceiros – quer sejam fornecedores, quer sejam detentores de licenças, quer com os clientes. Mapeamos o estado da arte ao nível de fornecedores e de fibras existentes, temos uma relação com um conjunto de produtores de fibras que vêm testar em fase inicial à Inovafil, havendo uma simbiose muito grande com os produtores e os seus desenvolvimentos. Universidades, centros tecnológicos, o CITEVE, o CeNTI, e os clientes fazem parte disto tudo. Os clientes têm cada vez mais os seus departamentos de desenvolvimento que, ligados com o nosso, começam a espoletar necessidades. A aprendizagem constante é aquilo que nos carateriza. E vamos sempre recomeçar, porque aquilo que achamos hoje muito tecnológico são as coisas básicas de amanhã – provavelmente produzidas do outro lado do mundo.

 

O que é que está escondido nos laboratórios da Inovafil neste momento?

Do que pode ser revelado, fazemos parte num passo gigante na sustentabilidade da indústria têxtil mundial. Um projeto europeu liderado pela H&M e pela Adidas chamou um consórcio europeu – desde empresas a universidades, que integramos – que está a trabalhar com fibras que estão a ser desenvolvidas na parte nórdica da Europa, que está na vanguarda de tudo o que é reciclagem. A reciclagem têxtil terá de ser resolvida na próxima década. E temos de encontrar uma solução, até porque a ‘fast fashion’ não vai acabar. Estamos a olhar para a roupa como uma matéria-prima. Os países nórdicos, que têm muito know-how nas madeiras, são os líderes em tudo o que são fibras celulósicas. Ou seja: pasta de madeira, pasta celulósica, fibras. Podem fazer papel, mas também fibras. O algodão tem percentualmente mais celulose que um troco de madeira: vamos cortar árvores para fazer fibras? Vamos alternativamente extrair celulose do algodão – que até dá para fazer papel. A estratégia é dissolver a roupa, extrair-lhe a celulose e voltar a fazer fibras. Há uma fibra – a Infinitive Fiber – que, não só através dos desperdícios de roupa mas indo até aos desperdícios agrícolas, porque tudo aquilo tem celulose. Este é o desfio do futuro. Isto para nós são ligações estratégicas. Até porque, com parceiros que estão neste consórcio, já conseguimos fazer projetos paralelos. É como se fosse um clube: depois de estar lá dentro, é fácil, entrar é extremamente difícil: é preciso ser reconhecido. Outros exemplos: fazemos parte de um consórcio liderado pela TMG que está a estudar fluidos não-newtonianos – em conjunto com o CITEVE e com o CeNTI. Estamos a trabalhar com o Exército alemão para fazer a parte têxtil do interior dos capacetes com uma fibra termorreguladora.

 

Qual é o investimento anual em I&D?
É difícil quantificar, mas é sempre na casa das centenas de milhares de euros.

 

Já se referiu à UM, ao CITEVE e ao CeNTI. Como avalia as capacidades nacionais na área da investigação?

Estão claramente ao nível dos melhores. Está cheio de pessoas muito capazes e principalmente muito acessíveis. O caminho da Inovafil é um caminho de inovação, de parcerias, com clientes, com fornecedores e com a ciência – para lançar produtos de vanguarda, muitos deles sem sucesso, outros com certeza que terão. E ainda temos de aprender a criar e a proteger o nosso produto. Temos de aprender a formar cadeias de valor entre empresas portuguesas.

Perfil

Rui Martins tem 47 anos é engenheiro têxtil, CEO e ao mesmo tempo acionista de referência da Inovafil – que conta também com a participação da Mundifios – e membro do United Nations Global Compact (UNGC), a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo, apoiada pela ONU. Pós-graduado em Gestão Industrial, esteve desde sempre ligado ao fio (o pai era diretor de uma fiação), começou na António Almeida & Filhos onde entrou como estagiário na e saiu como administrador (da Mortextile).

As perguntas de
José Morgado
Diretor do Departamento de Tecnologia e Engenharia CITEVE

Foi colocada em causa a sobrevivência das fiações na Europa, mas a verdade é que a INOVAFIL, assim como outras fiações portuguesas, continua a dar cartas. Que estratégia tem sido seguida?

É verdade que, alvo as raras exceções, o modelo de fiação mono-produto está esgotado na Europa. Falo pela Inovafil, em que o posicionamento geográfico de Portugal, potenciado por uma filosofia completamente diferente, onde privilegiamos a flexibilidade e diferenciação dos produtos, a resposta rápida e o serviço ao cliente, principalmente uma estratégia de parceria em desenvolvimento, são as componentes basilares a razão da sua existência.

Na Inovafil, em que a exportação é uma realidade, centramos a nossa operação no apoio e suporte ao desenvolvimento de novos produtos, aos nossos clientes nacionais, pois falamos da melhor ITV da Europa e a fiação têm um papel muito relevante para que continue na vanguarda.

 

Qual a importância das entidades de I&D nos processos de inovação da INOVAFIL e como prevê o futuro desta colaboração?

A par das Universidades a relação com os centros tecnológicos é estratégica, diria vital, para o futuro da Inovafil. De futuro terá que ser assente ainda em mais proximidade, mais colaboração, mais partilha e numa total abertura. As parcerias são basilares para aquilo que a Inovafil pretende representar para os seus clientes: tecnologia de ponta, vanguarda, inovação, valor acrescentado, desenvolvimento, etc…. 

Raul Fangueiro
Professor a UMinho e Coordenador Fibrenamics

Como prevê o desenvolvimento da fiação convencional face à necessidade de responder aos desafios da sustentabilidade?

A fiação convencional continuará a ser a mais relevante e importante tecnologia, uma vez que será decisiva para criar produtos alto desempenho e valor acrescentado, ao trabalhar com fibras recicladas, principalmente na vertente da reciclagem química, tanto celulósicas como de origem sintética. A principal evolução nesta tecnologia,será ao nível dos processos de compactação (Compact Ring), que permitirá maior durabilidade dos produtos e uma menor libertação de fibras, principalmente decorrentes dos processos de lavagem domestica. 

 

Qual a importância da relação da Inovafil com as Universidades na sua consolidação como fiação altamente inovadora e na vanguarda dos fios técnicos e sustentáveis?

A esta relação foi, é e será de capital importância para a Inovafil. É estratégica desde uma fase inicial na implementação do NIDYARN, o núcleo de IDI da Inovafil criado através de um projecto com a UMinho. É uma relação aberta e de proximidade, em que todos ganham, que permite transferir o conhecimento gerado pelas Universidades para a os produtos industriais, na qual nos disponibilizamos para que possam testar e partilhar know how. E para a Inovafil é uma ferramenta de procura, de investigação e testagem de produtos, matérias primas de ultima geração.

 

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