T75 - Setembro 2022
Empresa

T75 – Aprender com as dificuldades é a gramática da Riopele

Desde o século XIX que o Vale do Ave se transformou num território de grande densidade fabril nos segmentos da fiação e da tecelagem. Aliás, a têxtil algodoeira tornou-se uma atividade dinamizadora da região, com um grande impacto sobre toda a vida económica e social da sua sociedade. Localidades como Pedome, Riba d’Ave, Delães, Ronfe e Pevidém eram freguesias com diversas unidades fabris e um importante volume de trabalho fabril. No que diz respeito ao algodão, segundo o inquérito de 1890, o seu protagonismo era tal, que estava instalado nas freguesias com tradição de tecelagem.

Tiago Alves

Apesar de tudo, a Riopele nasceu numa conjuntura difícil, uma vez que o mercado estava saturado e era fortemente concorrencial, o que dificultava a atuação de uma pequena empresa. Neste contexto, o crescimento da Riopele teve muito mérito do jovem José Dias de Oliveira, que deu uma dinâmica própria à empresa.

Filho de Maria de Abreu e Francisco Dias de Oliveira, José Dias Oliveira, o fundador da Riopele, nasceu em Mogege a 17 de agosto de 1902, e desde cedo tomou contacto com o mundo da tecelagem que constituia o meio de subsistência para a maioria da população da região têxtil do Vale do Ave. 

Ainda jovem, José Dias Oliveira mostrou o seu empreendedorismo, montando um negócio próprio com o objetivo de alcançar a independência económica. Tinha 25 anos e trabalhava na distribuição de pão, quando decidiu instalar dois teares num moinho de água, na margem esquerda do rio Pele e pedir um empréstimo para a compra dos teares de caixão. 

Começou a produzir tecidos grossos de algodão, como cotins e riscados. Nesse mesmo sítio, com o moinho no epicentro, projectou a sua primeira tecelagem.  

Estabelecido com empresário têxtil, o fundador da Riopele não demorou em lançar as bases da sua família, casando-se em 1928 (o ano em que António de Oliveira Salazar toma posse como ministro das Finanças) com Olinda da Costa Reis, que contribuiu decisivamente para o sucesso futuro da start up nascida na margem esquerda dai rio Pele.

Iniciada nas artes da tinturaria e da tecelagem, Olinda deu uma ajuda preciosa ao formar as operárias que foram sendo contratadas para sustentar o aumento da capacidade produtiva da jovem empresa – que começou a comercializar os seus produtos com a marca própria J.O., derivada das iniciais do nome do fundador. 

O sucesso foi rápido. A fama da qualidade do cotim fabricado pela empresa de Olinda e José alastrou-se ao ponto da produção se esgotar em pouco tempo, sendo integralmente comprada na zona à volta de Mogege.

A Grande Depressão dos anos 30 e a política de Condicionamento Industrial do Estado Novo  – que restringia a margem de manobra das empresas para investirem em novos equipamentos, ampliação de instruções e aumento da capacidade instalada – foram os dois principais obstáculos que a Riopele teve der superar para prosseguir o seu caminho.  

Apesar destas dificuldades, José Dias Oliveira logrou continuar a crescer, transferindo em 1933 a fábrica para a margem direita do rio, para novas instalações com dois espaços autónomos  – um estava dedicado à fiação e tecidos enquanto o outro albergava caldeira, tintura, acabamentos, refeitório e vestiário. 

O nascimento formal da designação atual deste grupo empresarial deu-se a 10 de novembro de 1934, quando José Dias Oliveira registou na Repartição da Propriedade Industrial o nome de Fábrica de Tecidos do Rio Pele.

Nuns anos 30 assolados por violentos conflitos armados no coração da Europa –  a Guerra Civil de Espanha (1936/39), mesmo aqui à nossa porta, e a II Guerra Mundial, que deflagrou em 1939 – a Riopele soube tirar partido das novas oportunidades de mercados, que a neutralidade de Portugal abria, para aumentar a capacidade produtiva e assim poder crescer na exportação, pelo que no final da década já empregava 140 trabalhadores.

Empresário dinâmico, arrojado e com visão estratégica, o fundador da Riopele aproveitou o fluxo de dinheiro conseguido através do aumento das vendas para comprar novos equipamentos de tecelagem (urdideira, caneleiras) e verticalizar a sua atividade investindo a jusante, no mercado retalhista, abrindo em 1943 uma loja de artigos têxteis, em Santa Catarina, a principal rua comercial do Porto.

No ambiente complicado do pós-guerra, José Dias de Oliveira, chamou para junto de si o filho mais velho, José da Costa Oliveira, que o ajudou a manter a empresa com a cabeça fora de água numa conjuntura marcada pela falta de matérias-primas e energia.

Para contornar a debilidade e incipiência da rede elétrica nacional, sintoma do atraso estrutural do país, a Riopele inovou ao adquirir um gerador a gasóleo que lhe permitiu suprir as falhas de fornecimento.

O coração traiu José Dias Oliveira num momento em que a sua Riopele atravessava um momento risonho de grande expansão, beneficiando do abrandamento das peias impostas pela Lei do Condicionamento Industrial.  

A morte do fundador não matou o sonho que prosseguiu com os seus filhos, que inspirados na tenacidade do pai conseguiram afirmar a Riopele como uma marca referência de qualidade no universo têxtil internacional – em particularmente nos tecidos destinados a vestuário de moda, área em que gradualmente se especializou –  e transmitir às novas gerações o espírito indomável, inovador e empreendedor de José Dias Oliveira, uma gramática que permitiu ao grupo continuar a deixar para trás os escolhos que lhe vão surgindo pelo caminho e comemorar a provecta idade de 95 anos com a flexibilidade e entusiasmo de um adolescente.

A Empresa

Av. Riopele, nº 946
4770-405 Pousada de Saramagos
Portugal

Nascida em 1927, numa conjuntura adversa, enfrentando forte concorrência num mercado hiper saturado, a Riopele aprendeu com o espírito indomável, inovador e empreendedor do seu fundador, José Dias Oliveira, a fazer das fraquezas forças e por isso está a comemorar 95 anos de vida com a flexibilidade e o entusiasmo de um adolescente.

Página em PDF aqui.

Partilhar