T21 Junho 2017
Dois cafés & a conta

Jorge Fiel

Famalicão
Kenneth gosta de viver aqui - e não tem razões para andar mal disposto.
Kenneth Huysentruyt
A Coindu é uma empresa enorme para as standards portuguesas, mas de pequena dimensão, em termos mundiais
Kenneth Huysentruyt

Nasceu e cresceu em Antuérpia, passou por Paris e Munique mas acabou em Famalicão na Coindu. “Gosto de estar aqui. A qualidade de vida é muito boa e as pessoas são muito acolhedoras”, confessa Kenneth Huysentruyt

G
G

osto de estar aqui. A qualidade de vida é muito boa e as pessoas são muito acolhedoras”, confessa Kenneth Huysentruyt, um belga de Antuérpia que há dez anos se mudou de Munique para Famalicão e de uma poderosa multinacional (a Lear), onde comprava componentes para a Volvo e para a Saab, para uma empresa familiar (a Coindu), onde passa um terço do ano a voar pelo mundo e a dormir em hotéis, vendendo assentos e estofos para automóveis a marcas como a BMW, Audi, VW, Porsche, Volvo, Renault e Lamborghini.

É mais fácil de entender por que é que o Kenneth gosta de estar aqui quando se está confortavelmente instalado na esplanada da Taverna Vaca das Cordas, numa daquelas encantadoras ruelas do centro histórico de Ponte do Lima que nos dão a sensação de termos viajado no tempo até ao passado, beneficiando daqueles dias absolutamente primaveris com que este Maio nos brindou, partilhando ao almoço um bacalhau delicioso e umas carnes irrepreensíveis, empurradas por um verde loureiro da terra.

“Aprendi os truques todos antes de passar para o outro lado”, graceja Kenneth, a propósito dos dez anos vividos como comprador de multinacionais gigantes (Johnsons Control, Faurecia e Lear) antes de aceitar mudar-se para o Minho e passar a ter como clientes os antigos patrões.

Claro que Munique, onde tinha o centro de gravidade antes de vir para o Minho, é muito diferente de Famalicão. O início foi um bocado complicado mas Kenneth não tardou a aculturar-se. “Quem muda para um país novo tem de se adaptar”, observa, pragmático, este poliglota fluente em cinco línguas (flamengo, francês, inglês, alemão e português).

Ter casado com uma portuguesa acelerou a aprendizagem da língua e costumes, amaciando o solavanco de quem troca a Alemanha pelo sul da Europa e uma multinacional por uma empresa familiar.

Com um volume de negócios de 293 milhões de euros e cinco mil trabalhadores, espalhados pelas suas fábricas em Portugal (Joane e Arcos de Valdevez), Roménia e México, a Coindu é uma empresa enorme para as standards portuguesas (é a maior da indústria portuguesa de têxteis e vestuário), mas de pequena dimensão, em termos mundiais – o que não desagrada a Kenneth.

“Numa multinacional, és um número entre 100 mil e vives uma ditadura dos objectivos”, lembra o Head Sales da Coindu, empresa fundada em 1988 por iniciativa de dois ex-quadros da TMG, com o apoio financeiro e experiência e contactos do empresário alemão Gunther Stichter (cuja família mantém 51% do capital).

Kenneth gosta de viver aqui – e não tem razões para andar mal disposto. A Coindu acaba de ganhar o concurso internacional para o fornecimento de estofos para o novo SUV da Lamborghini. E a Coindu Couture – criada há menos de três anos para satisfazer as necessidades de componentes de um famoso fabricante de malas de luxo – está a levantar voo.

“Estamos a investir 1,3 milhões de euros numa nova fábrica, que estará operacional até ao final do ano. Até agora só temos tido capacidade para responder às necessidades do primeiro cliente e de um pequeno número de marcas – como as Josefinas, Mateo ou Âme Moi – , que nos procuraram. Com a nova unidade, já faz sentido ir para o mercado em busca de novos clientes”, explica este belga optimista e poliglota, que nasceu na Flandres e casou no Minho.

Perfil

Nasceu e cresceu em Antuérpia, onde estudou Marketing e iniciou na Johnsons Control uma carreira nos componentes para automóvel. Dois anos depois mudou-se para Paris, onde se demorou quatro anos na Faurecia. Foi a trabalhar como comprador para esta multinacional que fez amizade com Armindo Gomes, um dos fundadores da Coindu. Em 2002 trocou Paris e a Faurecia pela Lear e Munique, onde estava posto em sossego quando os amigos da Coindu o desinquietaram, propondo-lhe uma mudança radical, da Baviera para o Minho e de comprador para vendedor. Solteiro e jovem (tinha 34 anos), arriscou e disse Yes - há dez anos ainda não tinha aprendido o português que fala com fluência. Após uma passagem de cometa por Braga, deitou âncora em Famalicão, onde vive com a mulher (portuguesa) e os dois filhos (um rapaz de cinco anos e uma menina de três com quem fala em flamengo), bem junto à fábrica de Joane onde bate o coração da Coindu

RESTAURANTE
Partilhar