T24 Setembro 2017
Dois cafés & a conta

Jorge Fiel

Sedacor
"A cortiça é a nossa especiaria, o nosso ouro, o único produto em que somos líderes mundiais..."
Adelino Oliveira
Há 4 anos ingressou na Sedacor, num regresso à cortiça, área onde ganhou o seu primeiro dinheiro
Albertino Oliveira

Do sonho de ser advogado que, rapidamente lhe passou, Adelino Oliveira investiu no Marketing. Começou no grupo Amorim passando depois pelos laticínios, filmes e madeiras, chegando há quatro anos à Sedacor.

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borrecido com Adão e Eva, Deus virou-se para o mais antigo dos nossos antepassados e disse-lhe: “Tu és pó e a pó da terra tornarás”. O pó de cortiça, desperdício do fabrico de rolhas no grupo JPS, também voltará a ser pó, mas antes de cumprir esse destino vai conhecer uma nova vida, por obra e graça do arrojo tecnológico da parceria entre a sua participada Sedacor com a Têxteis Penedo, CITEVE e a FEUP – que venceu o prémio Inovatêxtil 2015, com o projecto cork-a-tex, criou um fio inovador e natural, juntando resíduos de cortiça e algodão.
Este consórcio continua agora com o projeto cork-a-tex yarn, que vai entrar em fase de industrialização em Setembro, um investimento de 390 mil euros que inclui a aquisição de uma máquina, instalada no CITEVE, para produzir fio que será transformado em tecido na Penedo.
“Faremos fio suficiente fino para produzir camisas, lençóis ou malhas”, garante Albertino Oliveira, diretor comercial e de marketing da Sedacor, que já investiu 1,5 milhões de euros em i&d na área têxtil.
Têxteis-lar e confecionados são um dos mercados privilegiados dos tecidos feitos com cork-a-tex, mas estão muito longe de serem os únicos.
“A cortiça é a nossa especiaria, o nosso ouro, o único produto em que somos líderes mundiais, que tem características únicas e pode alavancar outras indústrias – a têxtil mas também o calçado, construção, mobiliário, automóvel, etc. – e ser um fator decisivo na criação de valor para Portugal”, diz Albertino, que tem debaixo de olho a indústria automóvel, antes de se virar para a aeroespacial e a construção naval.
O cork-a-tex é apenas um dos projetos disruptivos da Sedacor, criada em 1975 para usar o desperdício do fabrico de rolhas no fabrico de rolhas recicladas – e que com os 18 milhões de euros que fatura (2016) já é a mais importante empresa do grupo JPS, fundado em 1924 para o fabrico de rolhas naturais e que faz um volume de negócios global de 28 milhões) .
Este avant la lettre da economia circular foi evoluindo e invadindo outros setores. Primeiro, foram os aglomerados de cortiça para isolamento na construção. Depois foi a vez da têxtil, através de um processo inovador de laminagem que lhe permitiu chegar a um tecido de cortiça, lavável, resistente à tensão (aguenta mais de 50 mil ciclos de resistência à abrasão), impermeável, respirável e bastante flexível.
Foi com base neste tecido, desenvolvido internamente, a que a Sedacor não pára de fazer upgrades (“Retirámos os materiais não sustentáveis que entravam no processo de fabrico”), que ganhou o Inovatextil 2016, com um casaco confecionado pela Twintex.
“Com a sua capacidade de resiliência, adaptação à mudança e proatividade, a têxtil está a dar lições a toda a gente. Nós, os portugueses, já somos os melhores no produto e na tecnologia. Só falta sermos assim tão bons no marketing”, conclui Albertino, que está a negociar o tecido de cortiça com um gigante francês da moda, e a preparar o desenvolvimento de um couro 100% vegetal. Mas isso já são outras histórias…

Perfil

Nasceu, cresceu e vive em Paços de Brandão, numa família com tradição no negócio do papel - o bisavô foi pioneiro no fabrico de papel selado. Sonhou ser advogado (a até fazer carreira na política) mas um ano em Direito (Católica do Porto) chegou para lhe tirar a ideia da cabeça. Mudou a agulha para Marketing e Gestão. Fez o bacharelato no IPAM, a licenciatura em Marketing na Fernando Pessoa, que complementou com um mestrado em Gestão na UMinho. O primeiro dinheiro ganhou-o ainda adolescente, nas férias grandes, a descarregar camiões de cortiça e a limpar as florestas. Em 1989, debutou no grupo Amorim uma carreira profissional com escalas nos laticínios (Mimosa), filmes/vídeojogos (Ecovídeo/Sega) e madeiras (Vicaima) até que há quatro anos a Sedacor lhe proporcionou o regresso à cortiça. Casado, tem dois filhos: um rapaz que estuda Engenharia Mecânica (FEUP), e uma rapariga, que está em Medicina (Nova de Lisboa)

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